terça-feira, 27 de Novembro de 2012

segunda-feira, 19 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 18

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Acho que achei. Quer dizer, encontrei. O princípio. A história: 
Saí de casa. Fechei a porta. A chave ficou do lado de dentro. Não vou voltar. Desci as escadas. Terceiro andar. Fui até ao parque onde corro. Precisava de pensar. O que fazer sem as chaves. Os negócios obscuros com cheiro a erva seca multiplicam-se a esta hora do dia. Já passou o almoço. Não tarda fica escuro. Sento-me num banco. Sacudo as folhas húmidas e amarelas. Penso. A chave ficou do lado de dentro. Não tenho nada. Estou tranquilo. Vai ser esta a minha história. Já começou? 
Estou ao rubro. “Minhas senhoras e meu senhores”, vou a uma reunião, vou a uma estreia, vou a uma inauguração, vou a uma festa, escrevo uma carta, entro num avião, ando debaixo de chuva, vou correr para o parque, estou a escrever uma comédia, ou seja, estou a tentar confundir, ou seja, estou a tentar não ceder, ou seja, estou a inventar um mundo provisório, ou seja, incompleto, estou a criar o que ficou para trás. Estou em contagem decrescente com a cidade a desaparecer nas minhas costas. Já não estou. 
O terceiro andar ficou vazio. A chave ficou do lado de dentro. Acelero o passo. Gasto o passeio como um trilho a atravessar um relvado no parque. Isto é meu. Cada página que leio agora é transparente e deixa ver por trás o movimento do mundo. Apaguem as velas. Conquistei o meu espaço. O volume cabe na caixa que tenho na mão, a água já não escorre por entre os dedos. Tornei-me impermeável. 
Sou uma bola de espelhos. Flutuo pela ficção e vejo o fundo à distância. Desloquei-me do meu lugar, do meu tempo, e olho de longe. As tempestades passam ao fundo, sempre no horizonte, uma atrás da outra. E eu tão próximo delas. O quotidiano é meu vizinho. Estou a criar um mito. Produto, produção, produtivo. Continuo a andar para trás.
E mais uma tempestade. Não abandono o barco. Dou mais uma volta ao parque. Cheiro a erva seca queimada. Sinto-me copo de leite e recordo a chave do lado de dentro da porta. Um filme que não vi. Oiço-me alegórico e arrepio-me só de o pensar. Não quero nada disso. Ser palavras basta-me. Este diário é isto: “\. l ppppok7´\” (Espero ser capaz de num outro dia expor melhor. - Nein! Nein! Nein!) 
E continuo a andar para trás. A velocidade aumenta. O cabelo tapa-me os olhos. Já ninguém me acompanha. Eu recuo e os outros avançam. Estamos em mundos diferentes. E eu a precisar do reconhecimento de uma existência que me inscreva. É tão simples. Tudo isto no fundo é tão simples e eu embrulhado em palavras e direções para tentar explicar o caminho, a tentar fazer frente à solidão, à procura de companhia (“Um mais um”). 
Porque é que não me limito a dizer: siga sempre sempre sempre em frente. Não tem nada que enganar. Sempre  sempre sempre em frente. Sempre sempre sempre. Tempestade tempestade tempestade. Acumulo. Eu existo. Aqui e ali. Eu e eu e eu e eu. Preso no meio dos bocejos. Em missão. 
Já cheguei. Já chega. Não tenho mais.  
Cada frase é uma parte cumprida. À procura do consenso. E para começar, este prólogo: Hallo.

domingo, 18 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 17


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Na despedida visitei um local de partida, o aeroporto abandonado. Chama-se Tempelhof, é a nova coqueluche de Berlim. Parece que alguém o abandonou e deixou a chave do lado de dentro. Correm pessoas nas pistas. Dois aviões ficaram esquecidos. Estão à espera que lhes tragam o motor. Entrei num deles. Sentei-me no lugar do piloto. No horizonte uma tempestade. Levantei voo sem qualquer receio. Vamos em frente, disse para os passageiros e tripulação. Agarrei-me ao leme e fiz aquilo que me ensinaram. Aterrámos em segurança. Falso final.

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Prometi a mim mesmo que não me ia embora sem chegar ao princípio. Estou a tratar do assunto. Rejuvenesci. Já oiço a música do genérico de abertura. A tensão instala-se. O entusiasmo em meu redor, a expectativa. Desde o epílogo que aguardávamos por este momento. Sinto-o a aproximar-se. Espero que não me fuja.

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Claro que, tendo em conta todo o discurso produzido à volta deste momento inicial, poucos são aqueles que acreditam que ele venha de facto a existir. Sabemos bem como tem sido nos últimos anos. Todas as histórias que se concentraram à volta de um momento, deixaram encoberto esse momento. Finais abertos... Já lá vai o tempo das conclusões. Até de “Rosebud” já lá vai o tempo. Se hoje se fizesse o filme, não haveria sequer objeto. Apenas uma palavra: Fim.

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Não acabou. Amanhã começamos.

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Livre/o





















Um enlace feliz Fanzine segundo alberto Pimenta
ed. Kenos

"Ponho por ordem estas letras: A L B E R T O P I M E N T A.
Não sou obrigado a pôr estas, mas, se não pusesse estas, era obrigado a pôr outras."

sábado, 17 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechas fronteiras) 16

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Estou em contagem decrescente. Conto as horas para trás. Acordo à meia noite e deito-me às sete da manhã. Corro de costas. Afasto-me e não me aproximo. Cada vez mais novo, repito vezes sem conta: regresso. A tempestade está no princípio. À minha frente. 

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Hoje, na despedida de uma terapia de grupo académica, a regente pronunciou-se: Este encontro foi tremendamente produtivo. E eu por dentro pensei: produtivo, produção, produto. Produto, produção, produtivo. E não fui capaz de abandonar esta tríade. Bloqueei. O que faço eu com ela? Como saio do círculo? Olhei para as minhas mãos vazias. Olhei para a cidade nas minhas costas. Uma memória a fugir. Um diário, arquivo inconsequente. Recuei pelos dias. Tropecei nos livros no tapete de casa. O tampo da secretária está vazio. Tenho a mala aberta no chão a aprontar-se para a partida. Esvaziei o frigorífico. Produtivo, produção, produto. Tenho de me justificar assim? A minha existência? (Uma música no ipod ao sair do metro: I was here, I lived, I loved, I was here, etc. - assustei-me.) Produto, produção, produtivo. Justificação para me achar. Para topar o meu cheiro. O lastro. Para definir os metros quadrados que ocupo. O meu registo. Como se eu existisse. Como se o produto fosse eu. Para ser produtivo. Mas que produto sou eu? (E não, isto não é sobre a ditadura económica contemporânea, não me estou a queixar do mercado ou do capitalismo, etc.) Que existência é esta que recua à procura de um mindinho, ou seja, à procura de uma coisa pequena capaz de servir de início para tudo o que aí vem? Quem é este diário escrito ao contrário? Onde é que ele está? Nunca mais começa a história. 


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Livre/o














Confissões de um jovem escritor de Umberto Eco
ed. Livros Horizonte

"O Papa e o Dalai Lama podem passar anos a discutir se é verdade que Jesus Cristo é o Filho de Deus, mas (se estiverem bem informados acerca de literatura e de banda desenhada) ambos têm de admitir que Clark Kent é o Super Homem e vice-versa."

quinta-feira, 15 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 15


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Vou aproveitar a deixa do dia anterior para expor o que o protagonista procurou. Assim preto no branco. Já o dei a entender. Disse por outras palavras. Mas pode não ter ficado claro. E desde que cheguei a Berlim que o meu propósito é a clareza. Os dias anoitecem cedo aqui, e por isso a exigência de iluminação é maior. E se não expuser o que o protagonista procura desde o primeiro dia, ninguém reconhecerá o desenlace ou a falta dele. Para o sucesso da história, explico aqui que aquilo que o protagonista procura, e que ninguém ainda sabe se encontrará, é qualquer coisa como a descrição de felicidade que encontrei num livro: morrer, sim, mas apenas se me puder ver a mim próprio morto. Ou ainda, no mesmo livro, mas outra descrição: remar para o meio do lago, largar os remos, deitar-me no barco e deixar-me ficar assim deitado. Ou ainda uma outra descrição:  ver-me a sair daqui. Ou ainda uma outra descrição: regressar. Ou seja, na famosa descrição: descrever o fim quando chegar ao fim. Também se pode chamar liberdade. Não fui eu que o fiz. (Há um livro sobre isto.)

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BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 14


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Talvez devesse parar aqui. Talvez devesse sair daqui. Acordei assim. Olhei para o teto e saí. Preciso de um movimento. Foram três dias parado em casa. Criei um mito. Sentei-me na cadeira, li, olhei as paredes. Três dias. Escrevi linhas. Dormi pouco. Estava frio lá fora. Recusei-me a sair. Chegam-me trinta metros quadrados de mundo. Não olhei sequer pela janela. Nem internet. Quero que se fodam todos. Estou a criar um mito. Mas hoje, quando acordei, deu-me umas ganas de sair que não me contive. Enfiei-me no metro para passear nas ruas. Dei encontrões. Conquistei o meu espaço. Despedi-me da cidade. Entendi que, para bem da humanidade (e continuo com estas manias universalistas), me devia começar a despedir. E entendi que, os próximos dias serão dias de diletantismo de despedida. Vou privilegiar o tom nostálgico. Vou acentuar o sentimento de partida, ou seja, de quem parte, ou seja, de quem se parte, ou seja, de uma parte para um lado e outra para o outro. “Minhas senhoras e meu senhores” (e estou a citar o Sloterdijk, imagine-se - fim de citação), a partir de agora este será um diário feito de noites. O sol já se pôs e não irá voltar a nascer. Berlim fecha as suas portas. O avião espera por mim. O herói despede-se. Aproxima-se o tão aguardado final. Será que teremos desenlace? Será que o protagonista encontra aquilo que sempre procurou?

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terça-feira, 13 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 13


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Voltei! Fui à procura de livros e comprei umas meias. Fui à procura de calças e comprei um bilhete de metro. Fui à procura do almoço e comprei um álbum de fotografias. Fui à procura de uma rua e encontrei um conhecido. Fui à procura de uma história e encontrei um fim.  

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Voltei! Uma Stammkneipe é a tasca, ou seja, o bar, onde se vai todos os dias beber uma cerveja. É vizinhança. Tem alcatifa no chão. O cheiro a tabaco já não sai. É como a sala de estar, um prolongamento da própria casa. Tem cabides tortos. Um balcão. Pouca gente. Às vezes mais. O prefixo “Stamm” significa tudo o que anda perto de tronco, base, estirpe, hábito, e por aí fora. Stammkaffee é o café aonde sempre vou. Stammtisch é a mesa onde sempre me sento no café aonde sempre vou. “Stamm” é a defesa da rotina. Da repetição. Stammbuch é o livro de referência. Stammwort é a palavra que não esqueço. Stamm é a reivindicação do hábito. A apropriação do mundo. A domesticação do caos. A transformação da vida. O absurdo da humanidade. A justificação para uma entrada num diário. 
Talvez devesse ir dormir. 

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Voltei! Palavra do dia: “olarilolela”.

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BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 12


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Às muitas da manhã faço o balanço. Querido diário, está na altura de te perguntar: para quando finalmente o repouso? Para quando o fim destas linhas que teimam em não acabar? Será que vou em breve deixar de me sentir perdido em inícios? Não consigo andar mais nesta cidade assim. A minha vida é um drama. Perdi noção dos dias. Quantos passaram já? Em que dia vamos? A minha vida é um drama. Já não sei em que língua sonhar. Não sou capaz de desenhar uma linha reta. A minha vida é um drama. 
(Pausa.)
Volta e meia ensaio este discurso. Como se tudo isto fosse sério. E depois desfaço e comento, como se tudo isto fosse mentira. E depois comento o comentário, como se tudo isto não existisse. E depois desminto o comentário, como se tudo isto fosse a vida. 
Já acabei. Recusei os leitores. Não lhes falei ao coração. Perdi as histórias a meio. Procurei a possibilidade, ou seja, a finalidade, mas sem convicção. Dediquei-me a demasiados caminhos. Estou perdido. E ninguém suporta um escritor perdido. São tantas da manhã e eu ando à deriva. Atravesso as tempestades como quem encolhe os ombros. Nada importa. Bati no fundo da ficção. Afoguei-me. E inchei. Aumentei o tamanho e tornei-me grotesco. Ninguém quer olhar para mim. Viram-me as costas como quem vira uma página. O leitor quer ler outra coisa. Quer saber se vamos chegar a algum lado. Quer saber mais de Berlim. Quer estar a par. Quero entrar dentro de ti. Quero saber se estás bem. Quero cheirar os teus cheiros. Quero saber o que comes. Quero ver o parque. Também quero ir ao café. Quero nomes, dados concretos, estações de metro. 
(Pausa.)
\. l ppppok7´\ 

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segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 11


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Fui a uma festa. Uma inauguração. Uma bola de espelhos. Uma cave. Muita gente. Fiquei a olhar. Pensei em palavras. Tentei aplicá-las. Até me esquecer do que via. Fiquei com as palavras. Criei uma tempestade. Continuei nela. Pensei: como é que acaba? Para onde é que vai? Telos, telos, telos... Voltei a abrir os olhos. Havia quem dançasse. Bati o pé. Recusei-me a movimentos exóticos. Não sou como tu. Estava na hora. Subi as escadas. Não se ouviam os meus passos. Desapareci. 

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Fui a uma festa.Uma inauguração. Bola de espelhos. Um primeiro andar. Gente que nunca mais acabava. Pus-me a dançar. Estava torto ou talvez os outros tortos. Dei três passos (de dança) e passei à próxima sala. Tentei conversar. Tempestade, tempestade, tempestade. Como é que começa? Em marcha atrás? Mudei de assunto. Encostei-me a uma parede e apoiei o cotovelo no antebraço. Coço o queixo e disserto: O custo de vida, as dificuldades e facilidades, a política internacional, ai a economia, arte, pois claro, Kunst, Kunstgemeinschaft, Kunstwissenschaft, Kunst. E depois? Desci as escadas. Não se ouviam os meus passos. Desapareci.

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domingo, 11 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 10


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Se a seguir à tempestade não vem a bonança mas sim outra tempestade, resta-nos procurar o consenso e construir a torre. Cada tempestade é um passo atrás. É recuar. Até ao dia sem dissensão. E perguntam: Mas que tempestade é essa? E a resposta: É só uma história. 

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A necessidade de uma finalidade. Não o fim que acaba mas o que começa. Querer o destino, ou coisa parecida. Como pode um diário? Como pode um dia após o outro? Estou numa biblioteca oval, sem ângulos retos. Continuo a pensar. Estou à procura da história da finalidade. Fazer história. Não me posso interromper. Hesito em demasia. Falo aos soluços. Tento uma história, tento outra, cada dia uma mentira. Um filme, uma viagem de metro, uma corrida no parque... Repito palavras para as encaixar no discurso: tempestade, texto, mentira, diálogo, casa, começo... 
Estou a criar uma massa. Sem querer. Por acumulação. Porque não sou capaz de ficar calado. E a massa, ainda sem eu querer, toma uma forma. Ou várias. Por acumulação. (Redonda como esta biblioteca?) E aos poucos avista-se a palavra Finalidade. Que é Possibilidade. Está a aparecer desenhada, ainda baça, no horizonte. 
(E estas coisas assustam-me. Este modo de falar. Parece que não sou já eu. É uma acumulação de livros. De metáforas de que não gosto. De palavras que rejeito. Rejeito “horizonte”, por exemplo. Não o quero dizer.)
Será que alguém vê a massa a aproximar-se. Esta coisa feita de palavras a pular, coisa em movimento. Será que todos pensam que sou eu? Ou será que já me esqueceram, que finalmente consegui que me esquecessem? Será que a ideia de sujeito se evaporou finalmente, que mesmo conjugando na primeira pessoa, esse lugar se vê desabitado, até que enfim?
Ontem, numa loja, vi um “boneco para solteiros”, coisa de plástico do tamanho de um mindinho que, segundo as instruções, “quando colocado dentro de um copo de água, incha, cresce”. A massa continua a inchar, a crescer. E está por isso mais próxima. A sua aproximação deve-se ao aumento do seu volume e não à velocidade de deslocação. Mergulhei as palavras na água: tempestade, texto, mentira, diálogo, casa, começo... “Tempestade” é maior do que ao início, no dia 1. “Metro” também. O “parque” igualmente. Todas as palavras crescem com os dias. 
(Será que desta vez expus melhor? - cf. 2)

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sábado, 10 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 9


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Se a seguir à tempestade não vem a bonança mas sim outra tempestade, resta-nos a vontade de abandonar o barco. (Isto não é uma metáfora, é um texto a ser escrito. Chama-se: Tempestade. E não é um texto, são tempestades.) 

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Este diário tem um destino. Mas eu ainda não digo qual é. Não posso revelar o fim. 
Fim.

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Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein! Nein!

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Filme da vida:
No bar onde estou, em frente a casa, uma sessão de cinema. Estou afastado do ecrã, não o vejo, mas sou obrigado a ouvir o som. É brasileiro, anos 70, talvez série C, com corais de igrejas e berros e cacofonia e sobreposição e umas vozes às vezes a dizer frases soltas, género: Porquê, meu Deus? Não pode ser verdade. Uma delas sempre que fala é em eco. Deve ser Deus. Diz: “A hora da verdade é chegada.” Agora canta-se “Aleluia”. O som está desafinado e envelhecido. Para quem só ouve tornou-se insuportável. Agora a voz diz: “Quem procura o fim terá um fim sem início.” E perguntam-lhe: “E este relógio, não marca as horas porquê?” “Não há maior castigo que o tempo. Dar tempo ao próprio tempo”, responde a voz com eco, ridícula. E perguntam: “Afinal quem é você?” “Não desperte a besta que vive em mim. Deixa que o meu descanso seja a sua...” (e não percebo esta palavra porque o eco aumenta para o final da cena). E agora um órgão toca a “Marcha Fúnebre”. Quem vê o filme ri-se. Mas há uma pessoa que a rir diz: “Não te rias. É suposto chorarmos.” E uma outra pessoa no público grita: “OH MY GOD!” E ouve-se o “Avé Maria”, também ranhoso e desafinado. E o público bate palmas. 
Fim.

sexta-feira, 9 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 8

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Quando estou a correr no parque, passo por gente parada, à espera, ou a trocar negócios obscuros que cheiram a erva seca. Para animar a tarde resolvo beber um café com leite. Sinto-me copo de leite. Estou ao rubro. 

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Carta ao filho
As saudades que eu tenho, meu filho, de quando ainda era possível ler-te, de quando ainda falavas connosco, de quando ainda era capaz de cheirar os teus cheiros. Agora oiço-te ao fundo, a gritares palavras trocadas, ou só coisas, ruídos, não sei o quê. Fiquei sem saber o que sentes. Já não sei o que comes. Porque é que não me tentas explicar? Perdeste as palavras? Perdeste o piu? 

Carta ao pai
\. l ppppok7´

Carta ao filho
O que queres dizer com “\. l ppppok7´” ?

Carta ao pai
\. l ppppok7´

(Será que isto conta como diálogo?)

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quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 7

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Uma história: hoje tropecei nas escadas do metro, apoiei-me com as mãos, abri o pulso, fui ao hospital, fizeram-me uma radiografia, aconselharam-me uma operação, fui anestesiado, operado, cosido, libertado, voltei a tropeçar e abri o outro pulso mas vim para casa, não quis ir ao hospital, mas o pulso inchou e acabei por voltar ao hospital e deram-me remédios, depois vim para casa, não consigo escrever, não consigo escrever, não consigo escrever, não consigo escrever, não consigo escrever, não consigo escrever. Acabou-se a história.

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E no entanto insisto em confundir a página de um livro com o sabor de uma falafel ou boulette mastigada a andar. E ignoro os diálogos. O que é que lhes terá acontecido?

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Num documentário na TV sobre Havana, vi crianças do subúrbio a jogar ping-pong sem bola. Fez-me lembrar um filme burguês.

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quarta-feira, 7 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 6

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E quando dou por mim, estou sentado no café em frente a casa com o computador ainda à frente, sempre à frente do nariz e aí fico como se não tivesse saído. Aborreço-me a mim próprio. Devia parar com isto. Inventar outra vida. Deixar de descrever esta. Dizer: estou em Moscovo e tenho as mãos congeladas. Ou: a noite não pára e eu acompanho todos os seus perigos. Ou: vejo tudo, faço tudo, e nem metade partilho com as letras. 

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Tendo desenvencilhar-me num texto. Cada linha sai lenta e sem saber bem porquê. Detesto os inícios. Custam-me a concentração. Quero fazer tudo menos isto. Não consigo perceber o que me mantém aqui sentado. Uma teimosia, uma insistência idiota. Não sou capaz de começar. Não vou ser capaz. Tudo é um drama. Há tantas outras coisas para fazer. E eu devia fazê-las todas. Tudo menos isto. 
Saio de casa. Desisto. Isto não é para mim. Vou correr. Começo a correr. Já comecei. 

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A pressuposição da autenticidade no leitor de um diário. A confiança do leitor de um diário em cada um dos dias do diário. Como se fosse mesmo assim. Como se um dia fosse um dia e um autor um autor. Como se fosse menos ficção. (É o género documentário.) E então eu digo, ou melhor, volto a dizer: isto é tudo mentira. Eu não estou aqui.

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Tento fazer qualquer coisa com uma ideia que não sou capaz de agarrar. Fogem-me as pontas por entre os dedos. É como fechar água entre as mãos, escorre por todos os lados. E quando tapo de um lado, destapa-se outro. Às vezes tenho vontade de desistir. Hoje tive vontade de desistir. Acordei de manhã com entusiasmo, li, corrigi, vedei e quando voltei a pegar, pouco depois, parecia que já nada funcionava de novo. Não sei o que hei de fazer com esta ideia. Não sei mesmo. Não sei, porque não a consigo agarrar. E porque ela só existe porque não se deixa agarrar. Porque está aberta e fechada. Porque está dentro e fora.

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Está na altura de contar uma história mas não me ocorre nenhuma. 

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terça-feira, 6 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 5


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Berlim contribui para a nostalgia. 
O teatro que não mudou, mudaram apenas as pessoas nos escritórios. Oferecem-me cervejas. E bilhetes. Fui ver Disabled Theatre. E durante pensei: Disabled Theatre também sou eu. Porque me leem sempre como capaz? Eu sou incapaz!(Tempestade) 

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Hoje tentarei ser mais claro. Acordei de manhã com essa vontade. Olhei para o dia anterior e pensei: Não posso continuar assim. Estou a expulsar os leitores da minha vida. Não posso caminhar para a solidão. E resolvo abrir o livro das histórias. Tenho umas quantas reservadas para momentos de crise. Leio-as. Em voz alta, para mim. E assim que fecho o livro resolvo sair de casa. Desta vez não vou correr para o parque onde há camelos em jaulas e esquilos à solta. Desta vez não vou ao supermercado comprar água e cerveja e sumo e iogurte. Nem sequer vou ao cinema. Desta vez não vou para a rua com os ouvidos tapados com música e os olhos enfiados nas frases. Não! Não vou fazer de toupeira. Olho em volta. Estou entusiasmado. Cada página que leio agora é transparente e deixa ver por trás o movimento do mundo. Oiço as vozes a gritar. Respondo de volta. Escrevo em letras grandes: Apaguem as velas! (esta mania das velas nos bares de Berlim). Bebi cinco cervejas mas continuo sóbrio que nem uma árvore. Já é noite e ainda é tão cedo. Vamos continuar a história. Próxima estação? Entro numa galeria. Está vazia. Anuncio: “Abri-me para o povo. Estou disponível para comunicar. Quem é que quer primeiro?” Fica tudo a olhar para mim. Tudo é quatro paredes, uma delas só vidro, estilo montra. Nada que me atrapalhe. É domingo. Temos todos tempo. Passo do lado de fora dos cafés com velas. Na mão tenho uma garrafa. Não sei onde a encontrei. Será que a história já acabou? Entro no metro com esta pergunta. Não me lembro do fim da história. E se pensar bem, também não sei do princípio. E agora? Em que estação devo sair? Onde é que moro?

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segunda-feira, 5 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 4


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Continuar a fazer. Insistir e insistir para provar a inutilidade. Mais: para defender a incompreensão. Mais: para defender que aquilo que percebemos é aquilo que nunca vamos perceber. Insistir e insistir e insistir.

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Às vezes (talvez seja do tempo e de escurecer tão cedo, não sei), sinto-me o escritor mais aborrecido a juntar frases. Sem um sorriso na página. Parece que me estou a afundar nas sombras de uma floresta. A encostar-me aos clássicos românticos. Será que acabarei por perder esta consciência e enfiar-me de vez na prosa soturna e intragável?
Se soubesse contar anedotas, não hesitava. Era agora.

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Hoje falei com a distância. A comunicação emigrante, por um ecrã de computador. E do outro lado ouvi um tom nostálgico a relatar uma vida. E se na altura ouvi apenas a nostalgia, mais tarde, muito mais tarde, horas depois, veio a conversa de novo. Estava eu à espera, encostado a um balcão e as palavras que ouvira de manhã no ecrã de computador passaram a fazer sentido. O outro lado tinha razão. A sua nostalgia é verdadeira. É minha também. É uma tempestade, pensei eu. Era uma nostalgia de um espetáculo e o reconhecimento da impossibilidade de o repetir. A nostalgia de um modo de fazer que deixou de existir. Uma nostalgia ainda para mais consciente de que o objeto passado provavelmente não foi o que a memória sobre ele construiu. E ainda assim sobrevive a nostalgia. Gostava de voltar atrás, penso eu com o outro lado. Gostávamos de voltar atrás. Ou talvez não. Gostamos apenas de criar o que ficou para trás.

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domingo, 4 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 3


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Há um mês atrás fechei um diário. Era um diário de uma estadia numa montanha. Não importa agora. Importa que parece que o género se quer impor. Como se fosse de momento o mais certo. Como se o dia abarcasse todo o tempo. A permanência do presente. A insistência. A repetição. Sem causalidade. E a adequação deste tempo às descrições do mundo. De um mundo pequeno. Talvez seja isso. Querer encontrar os limites do mundo. E para isso reduzi-lo, compartimentá-lo. Para que o volume caiba na caixa que tenho na mão. 

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Escrever uma tempestade. Escrever outra tempestade. Escrever outra tempestade. E mais uma tempestade. É como um diário. Escrever tempestades sucessivas. Escrever dias sucessivos. É sempre o mesmo dia. É sempre a mesma tempestade. É sempre o mesmo texto. 

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sábado, 3 de Novembro de 2012

Peter. Paul. No Mary.

"Ce que Pierre pense de Paul en dit plus sur Pierre que sur Paul"

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 2


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O Anthony Caro, a certa altura da sua vida, resolveu mudar de escala. Quis esculturas mais pequenas, abandonar as grandes dimensões, coisas que pousassem numa mesa e não no chão. Não lhe chegava porém pegar nas peças anteriores e reduzir-lhes o tamanho. Era preciso outra coisa. E constrói então objetos que se desequilibram no seu poleiro (seja este uma mesa ou um plinto), isto é, objetos com um elemento em diagonal a descer abaixo do nível da superfície em que estão pousados. E deste modo a nova superfície em que passam a estar expostos (deixou de ser o chão, passou a ser a mesa ou o plinto), bem como a escala destes novos objetos, afirmam-se não como resultado de uma escolha arbitrária mas sim de uma necessidade estrutural. É porque eles são tortos que precisam de ser erguidos do solo. É porque eles foram erguidos do solo que podem ser tortos. E o que é Caro responde à arte do contingente com uma ideia de essência, à diferença literal de escala com a afirmação do abstrato. 
Estou a parafrasear. O que me importa hoje na leitura é a observação de uma consistência. Vejo-me em movimento numa cidade. Insisto numa rotina disciplinada. Penso: Porque estou eu aqui? Oiço os diálogos que ficaram numa outra cidade. Neles maldissemos, entre outras coisas, a proliferação da expressão “ter ideias”. Por exemplo (e não receiem, as pontas vão acabar por se juntar), li um texto e a ideia que tive foi a de reproduzir esse texto. Em linguagem de teatro: Tive uma ideia. Vou fazer A Morte do Caixeiro Viajante. Isto não é uma ideia, maldissemos nós.
Voltemos atrás: Tive uma ideia. Vou reduzir o tamanho das minhas esculturas. Isto não é uma ideia.
Mas pode vir a ser. Tem de ir à procura da abstração. É isso a ideia. Como eu em movimento nesta cidade. Insisto numa rotina disciplinada. Não abandono o mesmo trajeto até o ter seguro na vista. Conheço cada uma das estações. Sei quando me aproximar da porta da carruagem. Não olho para os mapas. Dirijo-me sem hesitar à saída para a superfície. Acelero o passo. Gasto o passeio como um trilho a atravessar um relvado no parque. Isto é meu. Não é tudo, mas é meu. E estou cada vez mais próximo. Não da ideia. As ideias não me interessam. Não da abstração, apesar do meu interesse (ainda assim, não sou Caro). Estou cada vez mais próximo do quotidiano. É esse o meu dia. O reconhecimento de uma existência que me inscreva. 
Ser palavras. Este diário é isto. 
(Espero ser capaz de num outro dia o expor melhor.)

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BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 1


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Hoje convivi com bocejos. Não sei se eram dos outros mas ouvia-os tão distintos e volumosos que não podiam ser só meus. À minha frente estava uma plateia que descia bem cheia até a um palco atafulhado de baús e madeira e tecidos creme. A minha vontade era sair dali. Mas estava preso no meio dos bocejos. Não consigo perceber porque não saíram os outros para me abrir passagem. Será que não estavam ali? Terá tudo sido um delírio provocado pelo frio? 
E a caminho de casa, intrigado, resolvo ler e na leitura encontro a mesma perplexidade. Qualquer coisa como: Porque continuam as pessoas a querer estar presentes? Porque vêm elas de todas as partes do Império? Porquê? 
E a resposta no livro: porque querem. Porque têm boas estradas e meios de comunicação. Porque o metro funciona. E têm dinheiro para pagar o bilhete.  
Nas televisões do metro anunciam que o tempo vai aquecer. Entretanto tenho sono.

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quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

BERLIM DIÁRIO (fechar fronteiras) 0

(Vou passar as próximas três semanas em Berlim, no departamento InterArts da Freie Universität, a cumprir parte do meu programa de doutoramento. Entretanto, escrevo aqui.)

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Este é um diário que não se faz de dias mas de letras. Ocupo uma cidade que não é minha mas já foi e olho para as ruas que passam no meio dos livros. Estou aqui em missão. Cada frase é uma parte cumprida. Peço condescendência ao leitor. Não prometo nada. Podia começar como acabarei: com um epílogo. E nesse final vou dizer: tirem-me daqui. Até lá, vou tentar divertir-me, ou seja, vou escrever uma comédia, ou seja. vou tentar confundir, ou seja, vou tentar não ceder, ou seja, vou inventar um mundo provisório, ou seja, incompleto, ou seja, o que quer que isso seja.
Este diário é um diário sem utilidade. Também não faz turismo. Nem dá visibilidade. Mas tem objetivos. É uma coisa concreta com frases ambiciosas. A sua ambição é encontrar o caminho da concretização. O diário acompanha todas as outras escritas, todas as outras frases, as que escrevo noutras páginas e as que não escrevo. E se estas são as primeiras frases a aparecerem aqui é apenas porque são as primeiras frases a aparecerem aqui. Pensei noutras antes destas. Ainda as oiço ao fundo. Ficaram no avião. Ficaram nas escadas que subi. Nos autocarros. E levaram-me até ao terceiro andar onde agora sinto os pés frios. E cada uma dessas frases foi uma tentativa. Quando aqui chego, passei por muitas. Concretizei algumas. Escrevi uma tempestade, comecei uma apresentação, estive numa reunião, fui a uma estreia, escrevi uma carta, andei debaixo de chuva ou fui correr para o parque. 
Para terminar este epílogo, uma última informação: eu não existo. Estou aqui como estou ali. 

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quarta-feira, 10 de Outubro de 2012

Texto lido na Universidade de Liège no dia 28 de Setembro de 2012





IS THERE ANYBODY OUT THERE? 
by J. M. Vieira Mendes (Teatro Praga)

Who are they?
Why did these people come here to look at us? And who are they? 
The audience is, first of all, a recognizable concept, which stands for people whom we think we can get to know, or whom we think we don't want to know. It is an audience we can describe and that we can also be part of. It is an idea of an audience, an idea that serves the need for a certainty, but is easily contented with the aspiration of that certainty.
But there is also the audience that actually comes to watch the performance. This audience does not fit in a description based on knowledge. These "others" that come to watch "us" demand a different description. We cannot expect to get to know them, or even dream of that possibility. What we do find in this audience is an acknowledgement of ourselves, of our own ideas. 
It is the confusion and coexistence between these two identities (the idea of the audience and the audience of the idea) that has mostly intrigued Teatro Praga, and that is what I will be talking about in this short conference. I will thus approach the issue of the audience from the perspective of a theatre collective, from the perspective of the performer and the performance. How can an artist talk and think about her audience?
For that purpose, I will start with a brief description of two of our performances. They were both devised around the problem of the audience's identity. And in that sense, and in the spirit of this colloquium, they are performances, whose creative process was shared with the audience.

Two performances and one question 
Conservatory (2008) was commissioned by an international Portuguese Theatre and Dance Festival called Alkantara. The invitation came at a time when Teatro Praga was emerging in Portugal's theatre scene as the theatre company of the new generation, whose work was characterized with scary words such as “fresh”, “new”, “innovative” and “radical”. Following the expectations of the descriptions, we decided to cheat our audience, to cheat those who had seen in us a promise of future and a glimpse of hope for the hopelessness of Portuguese theatre. 
In our heads, Conservatory was aiming to disappoint our audience, that is, the audience that came to see us with the expectation of watching what they thought a Teatro Praga show would be like. We wanted to displease them.
We decided to play the following game: If we are placed in the "subversive artists" category, we will subvert the subversion and announce ourselves in this festival as the most conservative theatre company of our generation. We will make a monstrous show, where we will classicize ourselves. We will build a conservatory, where the brand Teatro Praga is preserved and shown in a closed and protected room (a greenhouse) without the danger of contamination. In Conservatory, Teatro Praga was plants for others to see. 

A few years later, in 2010, we found ourselves thinking of a show to please the audience. The show was commissioned by Centro Cultural de Belém, a major Portuguese cultural venue, a space that was originally built to house the Portuguese presidency of the European Union. They asked us to make a show based on Shakespeare’s A Midsummer Night’s Dream for their big 1000 seat auditorium.  Being a company connoted with a theatre of counter-power, innovation and anti-institutionalism, Teatro Praga could not help being interested in the circumstance that lead to the invitation and the comfortable budget. Were we no longer the off, radical artists, but a collective that could play Shakespeare in a 1000 seat auditorium? Or were we the counter power that the power wants to have on its side? 
We set our hands to these questions and imagined ourselves as "the theatre company of the regime". To comply with this concept we decided to work on Henry Purcell’s semi-opera The Fairy Queen, which is a musical adaptation of Shakespeare’s A Midsummer Night’s Dream. Purcell composed this semi-opera for Charles II, at a time, the end of the 17th century, when shows in England, after the puritan period, were strongly influenced by Louis XIV’s French court theatrical experiences and the Italian stage machinery. The so called Restoration Theatre was all about making spectacular, exuberant and excessive performances that provided entertainment for the court. It was, in short, an art of power, meant to please the monarch and his friends, its contemporary audience.
In the show, Teatro Praga set out to revive those times and deal with a possible updating of Restoration Theatre. Our Midsummer Night's Dream reflected on what would be today’s art of power: Who is the power? Who is the king in the democratic dissemination of responsibilities? Whom do we have to please? This resulted in a show that tried its best to be friendly and fantastic and, above all, pleasing. We wanted to make the audience happy. 

When I talk about these shows in public situations, the audience ends up asking me: Well, did you succeed in your goal? Did you (dis)please the audience? 
And I always sense that there is something wrong about this question. Not just because the answers that I mumble in such occasions are quite boring, but also because I cannot go any further in my thought neither with the question nor with the possible answers.

Idea of an audience
In the heat of a discussion, a cultural politician once told André Teodósio, a Teatro Praga member, that she programmed activities for the people, not for herself. When André confronted her with what she had just said, she immediately reformulated her assertion, considering herself as part of "the people" and thus avoiding the scent of elitism in her words.
However, the initial honesty of her statement sounds much more interesting and useful to me, since it verbalizes with transparency the idea of an audience. Whether we consider ourselves part of that idea or not is, for the time being, not an important issue. What matters is that we somehow know or want to know this audience, which she called "people", for whom we do things. 

In the two shows I have previously described, this idea of an audience was used as a trigger to think of a performance. The audience, in both cases, is obviously a fiction, an entity that serves the purpose of a theatre company (or a theatre venue, a festival, a cultural institution, a colloquium, etc.). The audience is something we make up, just like the cultural politician makes up these "people" for whom she programs. 
Even when we say we don't know who this audience is, i.e. even when this idea of an audience is based on ignorance, we are still operating with the idea of knowledge, because it is the possibility of getting to know the audience that stands behind the ignorance. In such cases, we devise the show to overcome the ignorance, or to see what comes out of it. We perform to deal with the so called “irreducible distance” between us an them. Because we know that the audience is made out of emancipated "people" who think (how do we know that?!). The audience has arms and legs and they laugh and they look. And they accept us as "people", who also think and have the arms and the legs and who laugh and perform. We are part of the same world and that is why we can say that we have one thing in common: we have all been an audience member some day. 
Teatro Praga's performances try to deal with this unanimity, this consensus and banality based on knowledge or ignorance. We play with it. Expectations, future, words, ethics, books, these elements are all part of knowledge, like pleasing or displeasing an audience is. The idea of an audience is part of our own description. The fictional audience we imagined ourselves for Conservatory was helping us in creating our own fictional identity. To make a show is to describe ourselves, and the "people" is, in that sense, too, an idea of an "I", it is us. 

But we cannot take this knowledge too seriously. Not only because one is constantly confronted with the impermanence of the statements (what is new will soon be old and the artistic utterance, the performance, is as transitory as the political utterance), but also because the idea itself is constantly admitting its own impotence. It aims for the absolute and it falls at the hands of evidence. 

Audience of the idea
The reason why I find it difficult to answer the question about Teatro Praga’s ability to reach the goal of pleasing or displeasing the audience is because the idea of an audience does not come to watch the show. We cannot answer the question, because we cannot ask them (the people) the question. And this is what makes everything more amusing. 
During the performance, the idea of an audience may still be present in the room, but it is completely disseminated in the specific context of the moment. It is now confronted with the bodies of the people who have come to watch it. The people who have sat down in front of the stage are a different audience. And different not in degree, but in kind.
This circumstantial audience is not an audience we can please or displease. It is not an audience we ignore or an audience we know. Not even an audience we will get to know. All we can expect from this audience is, to use a Wittgensteinian word, the acknowledgement ("Anerkennung") of our presence - and vice-versa.
They are the others. We are not part of it, like we can be part of the "people" I was previously talking about. Actually, the only way we may expect to be part of this audience is by seeing ourselves mirrored in their eyes. And the fact that we do see ourselves assures us of their (and our) existence. Because this audience exists. It is there tonight. It is no idea of an audience, it is the audience of the idea.

Teatro Praga works with both audiences, because they are both part of our world. But the only thing we expect from the audience is to hear them answer one single question: Is there anybody out there?
And if there's a Yes from the crowd, that means that I am here (which is a relief.) And that we have reached our goal. We have proved our existence, our idea was acknowledged.

Epilogue
While recently watching Visconti's Senso, I ran into a dialogue between the Countess Livia Serpieri and the Austrian Lieutenant, on their first night of flirtation, that illustrates what I am trying to describe. Let us, for the sake of the  argument, imagine the audience as an Italian countess and Teatro Praga as an Austrian Lieutenant. 
Teatro Praga has just found a broken piece of mirror on the pavement. We take it in our hands and we look at ourselves. And the audience asks, feeling itself ignored or intrigued: "Why do you look at yourself in that way? Do you enjoy watching yourself that much?"
Teatro Praga: Yes I do. I never walk in front of a mirror without looking at myself.  
Audience: And why do you like it so much?
Teatro Praga: To be sure that it's… me
Audience: It's the only time you are sure to be yourself?
Teatro Praga: No. Also, when I see someone looking at me the way you are doing right now.

domingo, 16 de Setembro de 2012

ERRATA

Horas depois de ter acabado o Marco Alemão tenho a dizer que me enganei. 
O Discotheatre remixado pelos Medalha d´Ouro não era um concerto. Também não era uma exposição, nem um show de teatro e muito provavelmente não seria performance. Foi mais que isso. Foi o final de um encontro do qual ninguém saiu com uma palheta do baixista.
Não sinto qualquer necessidade de avaliar artisticamente qualquer uma das actividades do dia que passou, não só porque não tenho competências para isso, mas porque o artístico já está no ADN da maioria dos participantes. 
Entenda-se que não pretendo dizer que todas as pessoas que participaram no Marco Alemão são portadoras de um talento inato e muito espectacular. Está-lhes no ADN porque ontem ninguém teve de se preocupar com artes ou meias artes, cenas ou meias cenas. Foi um encontro, mas sobretudo uma celebração do que cada um já é. Não houve espaços para touradas nem picarias. Aqui os senhores e as senhoras trataram-se todos por tu. Coincidência ou não, no dia em que houve uma das maiores manifestações apartidárias em Portugal, no Goethe-Institut desde os miúdos de cinco anos que já dominavam perfeitamente duas línguas até à recepcionista do Institut que passou o dia a ver vestidos da Angelina Jolie num site feminino, todos viram e mostraram de uma forma muito honesta e despretensiosa. 
Se as relações políticas entre os dois países são uma merda, aqui o encontro foi muito mais pacífico, co-sensual e honesto. 

PS.: Quanto ao Vogue Fashion´s Night Out, a comparação que posso fazer é que nos dois eventos eu fui o mais charmoso.

Até um dia destes,
rodrigo